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O segredo de Boa Vista

Silvia Generali da Costa, novembro de 2023


Recentemente, fui convidada para falar sobre saúde mental no trabalho, na Universidade Federal de Roraima (UFRR). Povo acolhedor, servidores dedicados, universidade organizada. Até aí nada que me espantasse, pois eu já tinha excelentes referências.

O que me surpreendeu de verdade foi a proposta de cidade.

Ruas planejadas, várias com quatro pistas, sem engarrafamentos.



A cidade é limpa, não se vê sujeira no chão em lugar algum. Muito provavelmente por isso, não me topei com nenhum visitante indesejável, como ratos e baratas, apesar do calorão.

Pessoas praticando esportes, incluindo crianças, à noite. Pode ser porque durante o dia as elevadas temperaturas não estimulam ninguém a ficar na rua. Mas aí vem o que me deixou mais boquiaberta: os equipamentos públicos.


No canteiro, no centro de uma enorme avenida, com as já faladas quatro pistas, foram construídas o que os boa-vistenses chamam de praças, diferentes das nossas aqui do sul. As praças tem quadras poliesportivas, fontes coloridas, bares com mesinhas ao ar livre, pistas de caminhada, e são um ponto de encontro de pessoas de todas as idades e de todos os lugares. Todos os lugares porque em Boa Vista tem gente vinda de Belém, Amazonas, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Tocantis, e por aí afora. Gente que se apaixonou pela segurança e tranquilidade e não quer mais voltar para o lugar de onde veio. Tem até um dos maiores CTGs do país.


Há um local, próximo à orla do Rio Branco (e lá ninguém tem dúvida de que aquele é um rio), um parque aquático com esculturas enormes, divididas em grupos de animais, com dinossauros, tigres, formigas, todos gigantes, além de fontes e tobogãs aquáticos. Na saída da escola, as crianças vão lá com suas famílias, se refrescam e se divertem. Há funcionários na entrada para dar orientações, é limpo e gratuito. Não vi guardas armados nem Burguer King por lá.


Minhas anfitriãs disseram que condomínios fechados chegarão em breve, para desgosto geral, e a mendicância veio recentemente, acompanhando venezuelanos empobrecidos, que esperavam encontrar no Brasil oportunidades de trabalho - o que muitas vezes não aconteceu. Durante minha breve estada, fui abordada por duas pessoas pedindo dinheiro, ambas falando espanhol.


Prédio altos não são vistos. Ao contrário, é possível encontrar ruas com somente casas de um piso só, com muros altos na frente.


O atendimento em saúde, ainda segundo minhas anfitriãs, deixa a desejar. Em compensação, as escolas públicas contam com ar condicionado e são consideradas de ótima qualidade. Ne entrada da cidade há uma placa: bem-vindo à capital da primeira infância.

Enquanto isso, no outro extremo do país, o prefeito Sebastião Mello quer cercar a Redenção, entrega o Harmonia para que a iniciativa privada substitua árvores por brinquedos sem nenhuma originalidade (e cobre muito bem por isso) e as escolas estão sucateadas. Os problemas com empresas pagas pela prefeitura para a coleta do lixo se eternizam. Ratos e baratas comemoram enquanto penso em me mudar para Boa Vista.

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