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Em defesa do vira-latas preto

Silvia Generali da Costa – novembro de 2023


 

Sou do tempo em que o legal era ter um cachorro de raça. Havia cachorros “da moda”, como o Pequinês, o Dálmata e o Poodle. Os demais cachorros de raça, os fora-de-moda, iam aos poucos desaparecendo das ruas. Cachorros vira-latas, sempre abundantes e disponíveis, não eram considerados na lista de desejos e quem tinha um cachorro sem raça definida não era digno de inveja.


Mas os tempos mudaram, as pessoas se conscientizaram de que é importante cuidar da população canina de rua, e que uma forma de acabar com os cachorros abandonados é através da adoção. Além disso, canis irregulares ou clandestinos mostraram o quanto a produção de filhotes sem cuidado ou critério pode ser cruel.


Embora ainda existam os cachorros da moda, como os Daschunds, os Pugs, Lulus da Pomerânia e os indefectíveis Shith-zus, adotar um vira-latas virou sinônimo de ser ética e ambientalmente responsável, amante dos animais, e descolado.


Nesse contexto, os vira-latas caramelo viralizaram. Tem caramelo no TikTok; como “funcionários” de estabelecimentos comerciais, com direito a crachá e uniforme; e muitos afirmam que esse pet é o símbolo nacional brasileiro. Em 2020, uma brincadeira na internet propôs trocar a imagem do lobo-guará por um vira-latas, em cédulas de duzentos reais. O deputado Felipe Becari, conhecido pelo resgate de animais, apresentou um projeto de lei (PL 1897/2023) para tornar a expressão “vira-lata caramelo” manifestação cultural imaterial do Brasil.


Então, me pergunto: por que o caramelo? Tem vira-latas de todos os tipos e cores. Pretos, rajados, marrons, cinzas, coloridos, brancos, bicolores e tricolores. Essa é a característica básica do vira-latas: não há um igual ao outro. E as ruas estão cheias de latidos e pancinhas de todas as cores querendo uma comidinha fresca e um lar amoroso.


Se você pesquisar “vira-lata caramelo”, encontrará vários sites e matérias sobre o suposto símbolo nacional. Mas experimente pesquisar “vira-lata preto”. Encontrará que esse anilmazinho, ainda que seja tão esperto, carinhoso, brincalhão e tão saudável quanto qualquer vira-latas, é o último a ser escolhido em feiras, abrigos e nas ruas. Sua rejeição só está próxima a dos cães idosos, dos doentes e dos com algum tipo de deficiência.


Conversando com a Danielle Dentzuck, protetora de animais, pude confirmar a informação: os pretinhos sempre ficam para trás. Suposições encontramos aos montes para tentar explicar o fenômeno: cães pretos são associados a gatos pretos e as pessoas pensam que terão azar se adotá-los; há uma crença infundada de que cães pretos são mais brabos; há quem associe preto com escuridão e tem medo. Ou seja, nada racional. Imaginário popular correndo solto.


Por isso, faço três singelas propostas:

  1. Vamos oficializar o vira-latas como símbolo nacional? Seja lá de que cor?

  2. Vamos fazer campanhas para que os pretinhos não sejam esquecidos na hora da adoção?

  3. Vamos considerar adotar cachorrinhos pretos?

 

Vejam como sou tão fofo quanto qualquer caramelo.

































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