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CRÔNICA: O mundo tem um líder negativo no combate ao COVID-19

O site El País1 de 13 de abril de 2020, traz uma matéria do historiador e filósofo Yuval Noah Harari, professor no Departamento de História da Universidade Hebraica de Jerusalem e autor de Sapiens: uma breve história da humanidade; Homo Deus e de 21 Lições para o Seculo 21. O título da matéria não poderia ser mais oportuno: A Batalha Contra o Coronavírus – a humanidade carece de líderes.



Harari enfatiza a necessidade de cooperação no combate ao vírus e aponta a falta de uma liderança global que reúna esforços, aponte caminhos e aporte recursos para barrar o COVID-19, papel este que os Estados Unidos não vem demonstrando vontade política de assumir.

A reflexão desta semana parte da pergunta: qual o papel que o Brasil, com sua liderança, vem mostrando em meio à pandemia? A resposta é a antiliderança, ou uma liderança negativa. O governo, ao contrário do que pregam cientistas, filósofos, professores, historiadores, médicos e toda uma gama de profissionais especialistas em infectologia, nega as evidências científicas, desrespeita o conhecimento acumulado e leva a população brasileira a se expor a uma tragédia de dimensões ainda desconhecidas.

Quando o líder maior da nação circula sem máscaras por aglomerações de eleitores, espirra e troca apertos de mãos, ele está transmitindo – além de possíveis vírus - uma clara mensagem: não creio na ciência, não creio na cooperação, não me importo com as consequências do COVID-19.

Exemplo acabado do líder negativo, Bolsonaro amedronta e ameaça seus eleitores com a redução de salários e a perda de emprego, com a fome e a quebra da economia e apresenta a velha visão maniqueísta dos fatos: ou o povo morre de COVID-19 ou de fome. O Presidente, coitado, não é capaz de oferecer alternativas, não tem a menor intenção de acalmar a população e ainda, como exemplo ímpar de líder negativo, impede que os cidadãos busquem as suas próprias alternativas, que aprendam e que desenvolvam conhecimento.

O líder que se espera para dar conta dos desafios deste século, e já o disse no meu livro Comportamento Organizacional: cultura e casos brasileiros, não teme a sombra alheia, não quer fazer sucesso sozinho. Bolsonaro, ao contrário, fica com ciúmes do Ministro da Saúde e não vai sossegar enquanto não conseguir substituí-lo por alguém menos expressivo.

Mas o que se depreende da matéria de Harari para o El País, é que Bolsonaro não é um problema só do Brasil, é um problema mundial. A construção de muros não nos salvará do vírus. O mundo não conseguirá restringir a circulação do COVID-19 somente aos estados brasileiros.

Partindo-se do mesmo pressuposto de Harari, que “a história indica que a autêntica proteção se obtém com o intercâmbio de informações científicas confiáveis e a solidariedade mundial”, estamos dividindo com o mundo os reflexos de nossa escolha, como eleitores: uma liderança negativa e irresponsável com vidas humanas.

Alguém poderá dizer que nós, brasileiros, escolhemos este presidente e que nós, somente nós, devemos arcar com as consequências. Mas por que o escolhemos? Qual a responsabilidade de outros países nos problemas brasileiros? Quantas vezes os Estados Unidos apoiaram governos de direita na América Latina que, através de medidas ultraliberais restringiram o alcance de parcelas significativas da população à educação, à segurança e à saúde, condições estas que permitiriam um debate político mais qualificado e decisões mais acertadas, e não as tomadas com base na ignorância e no medo irracional?

A crise do Coronavírus escancara que não é possível isolar os países prósperos dos países miseráveis. Não só imigrantes desesperados tentam escalar os muros de contenção norteamericanos, mas os vírus e as doenças globais teimam em invadir também os lares abastados.

No sentido contrário, o da cooperação, cientistas brasileiros já ofereceram ao mundo inúmeras alternativas de baixo custo para o tratamento de doentes, como a cápsula respiradora, não patenteada e portanto de livre acesso, desenvolvida em Manaus pela equipe do Grupo Hospitalar Samel, que diminui o tempo médio de internação dos pacientes com Coronavírus e evita a entubação.

Assim, enquanto as lideranças mundiais não aceitarem que a globalização não traz só as “benesses” da exploração de mão de obra barata em países periféricos, mas que carrega junto suas mazelas e vírus; que os recursos naturais do Brasil são parte do ecossistema mundial e que destruí-los compromete o futuro da humanidade inteira; que não haverá desenvolvimento global em meio a ilhas de famintos e de doentes, não vamos progredir como espécie.

Como disse Harari, “o verdadeiro antídoto contra uma epidemia não é a segregação, e sim a cooperação”. E poderíamos acrescentar que na fórmula do antídoto não consta o medo, mas a informação e o conhecimento; que lá não se inclui o maniqueísmo, mas a criatividade e a geração de alternativas eficazes e de baixo custo; que o composto não aceita a mistura de individualismo, mas de cooperação, solidariedade e empatia.




Por Silvia Generali da Costa para o SIMPE-RS

16 de abril de 2020.





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