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CRÔNICA: No mundo de 2020

Quando eu era uma pré-adolescente decidi assistir No Mundo de 2020 em um cinema de bairro. Saí da sala impactada e nunca pude me esquecer de algumas cenas. Então, em pleno 2020, o ano vaticinado pelo filme, resolvi assisti-lo novamente. Minha intenção era verificar se a película futurista ainda me causaria tanto horror ou se minhas lentes juvenis haviam compreendido a mensagem de forma mais assustadora do que realmente era. O fato é que o filme continua terrível, ainda pior do que quando o vi pela primeira vez, talvez por soar tão mais próximo.



No Mundo de 2020 é uma ficção de 1973, ambientada em uma Nova York de 40 milhões de habitantes1, no ano de 2022. Sob a direção de Richard Fleischer, 2020 tem como ator principal Charlton Heston no papel de um policial designado a investigar o assassinato de um homem rico e conhecido.

A trama se passa em cenários de fome, desemprego, moradias precárias, desigualdade social e falta de acesso ao saneamento básico. Devido ao aquecimento global, o calor é elevado e constante. A natureza foi destruída e as míseras árvores que sobraram estão num santuário, esquálidas e solitárias.

Os nova-iorquinos se alimentam de uma espécie de biscoito verde chamado Soylent Green. A exceção fica por conta dos ricos, que têm acesso à bebida e à comida de verdade. As casas dos abastados são alugadas mobiliadas, o que inclui – entre os demais móveis – uma mulher para servir ao locatário.

As relações de trabalho são precárias. Numa das cenas o policial é baleado na perna. Uma mulher alugada lhe faz um curativo e pergunta por que ele não tira uma licença. O detetive Thorn responde que se tirar mais de dois dias de licença perderá o emprego e, por isso, prefere trabalhar ferido.

A vida e as relações humanas não têm valor. Velhos e doentes são indesejáveis. Pessoas morrem pelas ruas sem que ninguém se dê ao trabalho de velá-las. Quando alguém desiste de tudo, vai para um “asilo”, local onde se pode morrer assistindo a uma projeção de elementos extintos da natureza, cercado pela cor e pela música escolhidas. Quando há protestos por parte da população, a polícia envia o limpa-ruas, uma mistura de caminhão de lixo com retroescavadeira, que vai recolhendo os rebeldes e lançando as vítimas na sua caçamba.

Alguma semelhança com o nosso mundo de maio de 2020?

O filme apresenta diálogos imperdíveis, que apontam para a atualidade aterradora do filme. Em um deles, o detetive e seu parceiro conseguem um pedaço de carne e se deliciam. Thorn, o policial mais jovem, nunca havia comido aquilo. O mais velho suspira e pergunta: “como chegamos a isto?” Em um segundo diálogo, o ator principal declara: “há idiotas neste mundo que querem tirar tudo o que temos”. Em um terceiro diálogo, ao ouvir a expressão “Meu Deus”, uma senhora pergunta: “que Deus? Onde vai encontrá-lo”?

Me daria uma alegria enorme se o atual ministro do Meio Ambiente pudesse ver No Mundo de 2020. Ricardo Salles teria uma visão do que vai acontecer ao mundo se gente como ele – justo quem deveria defender todas as formas de vida – continuar com sua política de permitir o desmatamento da Amazônia, enfraquecer os órgãos de fiscalização ambiental, deixar populações indígenas serem atacadas e regredir nas políticas de preservação ambiental2.

Mas “os que querem tirar tudo o que temos” não se resumem a Salles. O atual Ministério tem sido pródigo em orquestrar as condições para um futuro distópico3. A pergunta “como chegamos a isso” deve ser feita hoje, antes que tenhamos apenas Soylent Green como forma de alimentação4. Se chegarmos lá, Deus terá se retirado de cena.

1 - No censo de 2010, Nova York já tinha mais de 8 milhões de habitantes e a Região Metropolitana contava com uma população de 18,9 milhões. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Nova_Iorque

3 - A este respeito, assista: https://www.youtube.com/watch?v=TjndWfgiRQQ

4 - Optei por não dar spoiler. Veja o filme e descubra do que é feito o biscoito verde mais famoso do cinema.



Por Silvia Generali da Costa para o SIMPE-RS

28 de maio de 2020.



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