CRÔNICA: Jogo de Varetas


Sílvia Generali

para o SIMPE-RS, outubro de 2020

O nosso equilíbrio emocional é como o antigo jogo de varetas. Quem conheceu esta brincadeira sabe que vários palitinhos compridos de madeira (posteriormente fizeram de plástico, mas não era a mesma coisa) são reunidos com as mãos, na posição vertical, e depois são largados de forma aleatória. A diversão consiste em cada participante ir retirando uma vareta por vez. Perde quem, ao fazer sua jogada, deixar a pilha desabar.

As varetas que nos sustentam são múltiplas: o amor da família de origem, a nova família (que nem sempre vem a existir), a saúde, nossa relação com o trabalho, as amizades, as oportunidades de lazer, o desenvolvimento de nossas habilidades, o reconhecimento, a aceitação pelos outros e a autoaceitação, a situação financeira, as perspectivas de futuro e tantas outras.

O quanto suportamos a retirada de varetas antes de desabarmos emocionalmente depende da constituição e das circunstâncias de cada um de nós.

Na primeira infância, por exemplo, a base será sempre os pais ou aqueles que representam esse papel. Na adolescência, os amigos crescem em importância. Na idade adulta, a realização profissional assume relevância assim como a eventual criação dos filhos e o bom relacionamento com o cônjuge. Na velhice, a saúde, uma estabilidade financeira e o afeto e o cuidado dos familiares e amigos costumam ser a base predominante de estabilidade.

Para além das diferenças de etapa de vida, as diferenças de personalidade impactam na importância de cada base. Alguns indivíduos optam por não casar-se ou por não ter filhos e sentem-se confortáveis assim. Outros, se sentirão frustrados se não constituírem uma família. Alguns almejam cursar uma faculdade, outros preferem trabalhar de forma autônoma sem exigência de educação formal. Uns gostarão de ter muitos amigos, outros escolherão poucos amigos com muitas afinidades.

Na personalidade, entretanto, há outros fatores que podem levar a torre de varetas a desabar mais ou menos rapidamente. A meu ver, alguns dos mais delicados são a autoexigência elevada, os sentimentos crônicos de culpa, as expectativas irreais e a necessidade de aprovação alheia.

Frente a estes elementos, se me é retirada a base do trabalho, sofrerei duplamente: pelo desemprego e pela ideia de que a culpa pela demissão foi exclusivamente minha. Não levarei em consideração a crise econômica do país, a redução dos postos de trabalho nem a eliminação de funções pela automação.

Se me preocupo com a aceitação de um grupo social que tem padrões estéticos elevados, posso nunca sentir que minha beleza é suficiente.

Se imagino ganhar muito dinheiro até os trinta de anos de idade (sem ter bem certeza de como isso acontecerá) a retirada da vareta da capacidade de aquisição de bens supérfluos pode ser desastrosa.

Um conceito que agora está na moda é o de resiliência. Talvez ser resiliente seja suportar a retirada de muitas varetas antes de desabar emocionalmente. Mas não se cobre nem se culpe mais ainda por não se sentir resiliente. Cada um sabe onde lhe aperta o calo ou quais varetas realmente lhe sustentam. E ainda assim, se a estrutura desabar, sempre haverá a ajuda de profissionais da saúde e das pessoas que nos querem bem para reerguer nossas bases.

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Sílvia Generali

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