RESENHA: Um mergulho na alma.


Sílvia Generali

Por Davi D´Ávila e Silvia Generali da Costa, setembro de 2020

TENÓRIO, Jeferson. O Avesso da pele. 1ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.



Embora esta seja uma sessão de crônicas, estou publicando uma segunda resenha e explico o motivo. Abordo temas que considero essenciais do ponto de vista político, crítico, humano e das transformações sociais; acabei me empolgando e escrevendo demais para uma resenha; e faço questão de compartilhar as obras com os amigos do SIMPE.

O Avesso da Pele fala da busca pelo pai, por si mesmo e pelo seu lugar no mundo. Não é um homem quem busca, é um homem negro. Isto impacta fortemente na narrativa, na percepção do racismo e nas reflexões sobre a identidade do personagem.

Do muito que já foi escrito e comentado sobre esta terceira novela de Tenório, recém-lançada, há um ponto que clama por atenção: a construção da masculinidade negra. Entendo aqui a masculinidade relacionada à paternidade, às relações amorosas, ao papel de filho, ao trabalhar e à visão sobre a vida e seus significados.

Como mulher branca, não me senti à vontade para discutir a obra sob esta perspectiva. Não sozinha. Então convidei Davi D´Ávila, homem, negro, leitor voraz, discípulo de Frei David, formando em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e participante do Grupo Masculinidades Negras. Com a palavra, Davi.

O livro “O avesso da pele”, do genial Jeferson Tenório é um mergulho profundo na alma humana. O livro além de trazer questões raciais importantes para o debate público, ousa ir além, aprofunda, com coragem, questões que estão enraizadas na sociedade brasileira, como racismo e machismo. Além de trazer temas complexos como violência doméstica, violência policial, nosso precário e defasado ensino público, masculinidade tóxica, paternidade etc.

Sua narrativa inicial é uma busca pela figura do pai ausente. Infelizmente muitos de nós negros crescemos sem a figura paterna para nos espelhar. Porém, como se fosse um espelho, na busca de conhecer o pai e sua família, o personagem olha, invariavelmente para si mesmo. E assim inicia-se seu autoconhecimento. O livro é uma conversa entre negros e negras. Quando se aborda a questão da autoestima e a dificuldade que temos de ver beleza em nós, lembramos que a escola é, muitas vezes, um lugar onde nossa autoestima é pisoteada com apelidos racistas dados por outras crianças que nos rodeiam.

Ao abordar relacionamentos inter-raciais, nós negros e negras que já namoramos pessoas brancas nos vimos em quase todas as situações relatadas desde o início, quando dizemos que “raça não importa, mas sim o amor”, ou comparamos nossos tons de pele e achamos bonita a “mistura”. Nos vimos também, quando somos o único negro em meio a família branca e então já somos chamados de “negão”, pois o racismo tem como seu principal instrumento nossa desumanização e para isso a retirada de nosso nome é fundamental, mesmo quando parece ser uma “simples brincadeira”.

Ao mesmo tempo, o livro não esconde os problemas e tensões que relações entre pessoas negras também geram. Traz assim, uma provocação que mostra que apesar de sermos negros, não somos iguais. A diferença de pensamentos, de forma de ver o mundo, de ideologia, também nos atravessa, assim como atravessa as pessoas brancas.
Com isso, o autor deixa claro que entende que somos sim, plurais e diversos.
Tenório também aborda o racismo recreativo, termo utilizado por Adilson Moreira, autor do livro “Racismo Recreativo”, onde ele demonstra que piadas e brincadeiras são usadas como forma de normalizar o racismo estrutural reproduzido pela sociedade brasileira secularmente.

O livro aborda a morte com delicadeza, mas sem esquecer a face cruel que a morte sempre tem e sempre terá, “a dor se impõe”, como ressalta em uma de suas frases. O livro impressiona pela complexidade de seus personagens, o mergulho que faz em cada um deles, buscando assim a humanidade que cada um de nós carregamos. Mostra seus defeitos e suas qualidades, suas fraquezas e suas vitórias e deixa claro que somos seres incoerentes e que isso é próprio do ser humano.

Diferente do estereótipo racista que descreve homens negros como seres “violentos e sem sentimentos”, os personagens negros são extremamente sensíveis e afetuosos.
O livro nos chama a reflexão, pois como diz um dos personagens “o mundo branco nos tirou quase tudo, o que nos resta é pensar”. Pensar é a forma mais transgressora de resistir a um Brasil que nos mata pouco a pouco, dia após dia. E para isso, não basta olharmos para nossa pele apenas, temos que olhar para dentro, e lá encontraremos a chama do fogo sagrado da liberdade que mora em todos nós.

Davi D’avila.

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Sílvia Generali

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