CRÔNICA: Isolamento no Setembro Amarelo


Sílvia Generali

para o SIMPE-RS, setembro de 2020

A minha primeira crônica para o SIMPE-RS foi escrita em março de 2020 e abordava o suicídio no trabalho. Volto ao tema devido ao Setembro Amarelo, campanha nacional de prevenção ao suicídio que teve seu início em 2020.

Inúmeros estudos já apontaram as altas taxas de suicídio no Brasil, sobretudo entre adolescentes do sexo masculino. Entre as possíveis causas estariam quadros de depressão não diagnosticados e/ou não tratados; desigualdades sociais; perda de valores comunitários levando a situações de isolamento; exposição à internet com conteúdos indesejáveis ou cyberbullying; falta de perspectivas; falta de modelos; dificuldades familiares e uso de álcool e drogas. Como estamos em plena pandemia, vou me deter nesta reflexão semanal na questão do isolamento.

Semanas atrás soube de um caso de uma idosa que morava só, sem parentes próximos, e que foi encontrada morta em sua própria casa. O óbito havia ocorrido há dois meses. Um sobrinho percebeu, após estes 60 dias, que ela não enviava notícias.

Há poucos dias, uma amiga que mora sozinha me disse que não se permitia adoecer na pandemia, pois não haveria ninguém próximo para lhe entregar alimentos sem risco de contaminar-se.

Com ou sem pandemia, somos uma sociedade de pessoas cada vez mais isoladas. Famílias com poucos filhos (ou nenhum), casais separados, apartamentos minúsculos, os custos financeiros de reunir os amigos em casa, a dedicação quase obrigatória ao trabalho, o estímulo ao individualismo e o tamanho de muitas cidades estão na base deste isolamento.

Eu não seria imprudente a ponto de sugerir que permanecêssemos eternamente presos a casamentos infelizes ou que voltássemos a ter o número de filhos que nossas avós tiveram. Muito menos que fôssemos todos viver em comunidades praianas. Se os modelos de família e os modos de vida anteriores não deram mais certo por mudanças nos costumes, diminuição do poder aquisitivo ou demandas de trabalho, a ideia não é simplesmente voltar nostalgicamente no tempo, mas olhar para o futuro. Que o isolamento pode gerar ou agravar quadros de depressão e ansiedade não parece haver dúvidas. O que precisamos pensar é em um modo de vida no qual possamos conciliar nossos modos de ver o mundo com um estilo de vida mais comunitário.

As estações de trabalho compartilhadas e os condomínios com áreas de lazer e de serviço comuns a todos os apartamentos estão na tendência contemporânea de compartilhamento. Mas somente compartilhar objetos, serviços e atividades pode não ser suficiente para romper o isolamento. Compartilhar vai além de utilizar a mesma bicicleta. A diferença? O cuidar, o se importar, o apoiar quando necessário. E isso requer proximidade, empatia e solidariedade, ainda que virtuais, nestes tempos de pandemia.

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Sílvia Generali

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