RESENHA: Os Bastidores de Emma, de Bruna Agra Tessuto


Sílvia Generali

julho de 2020.

TESSUTO, Bruna Agra. Os Bastidores de Emma. Porto Alegre: Editora Metamorfose, 2018.



A primeira narrativa longa da porto-alegrense Bruna Agra Tessuto apresenta as agruras de uma jovem atriz, tendo por cenário o curso universitário de Artes Cênicas.
A personagem se vê subitamente privada do que lhe era mais caro: seus amigos, seu primeiro grande amor, seu papel na peça de encerramento do curso e, até, parte de sua identidade. Perde seu chão, sua saúde e sua família cenográfica, o “Team Família Duncan”. Tudo isso numa fase da vida em que mais necessita de apoio, que é o momento de finalizar a faculdade e abandonar a identidade de estudante, de se voltar para fora da família de origem e de construir novos cenários para si mesma, constituídos de adultez. Bea entra em um grave quadro de depressão e de estresse pós-traumático, até uma tentativa de autorresgate através da escrita, com o apoio dos verdadeiros amigos.

O livro se mostra rico pela diversidade de pontos de análise. É possível questionarmos as razões da escolha de uma determinada peça ou papel e os paralelos entre atores e personagens. Também podemos dirigir nosso foco como leitores para o simbolismo psicanalítico dos tripés, presentes nas relações iniciais e nas relações finais de amizade e na trama da peça.

Por conhecer de perto o ambiente universitário, por ter estudado longamente o tema da liderança e gestão e por ser psicóloga, optei aqui por enfocar duas questões que são essenciais neste enredo: a responsabilidade e a amizade.

Os amigos de Bea, a personagem principal, a excluem de forma cruel e ilegítima de um trabalho que sempre foi uma construção grupal. Inveja? Competição? Covardia? Obediência? Medo inconsciente de desintegrar o que restava dos laços do grupo? Cada um destes elementos pode ter contribuído um pouco para o doloroso desfecho. Leon é um personagem patético e adoecido que se vinga da pior forma pela grave ofensa de que foi alvo: ser amado apaixonadamente por Bea.

Mas não posso deixar de pensar que tudo poderia ter sido muito diferente se as orientadoras compreendessem e assumissem seus papéis. O papel de orientar jovens em final de curso e, portanto, em início de carreira, não é nem jamais será somente técnico. Marci e Ana Celeste tinham o dever de impedir que este pequeno grupo teatral praticasse esse ato de indiferença com a colega fragilizada, algo do qual jamais se orgulharão.

Até é possível entender que um grupo de jovens, pressionados pela necessidade de concluir o curso, pelas expectativas familiares e próprias de sucesso acadêmico e pela firme intenção de agradar aquela que iria avaliá-los, possa ter cometido erro tão grosseiro. Não é completa surpresa que um jovem atrapalhado em seus sentimentos e em sua autoimagem, como Leon, cometa falhas. O que não é possível aceitar é que estes jovens não tenham sido impedidos, perdendo assim uma ocasião ímpar de aprender sobre empatia, solidariedade, amizade e união. A frieza das orientadoras ao encontrar Bea na cena da cafeteria remete ao clima de avaliação, produtivismo e exclusão que assola as universidades brasileiras: quem não está em perfeitas condições de produzir, que pereça.

Restou a Bea, em sua reconstrução, novos e verdadeiros amigos, os quais lhe deram seu apoio, afeto e solidariedade desde o início. Quando tudo o mais parece se perder, não será este o grande encontro?

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Sílvia Generali

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