RESENHA: A cor do outro, de Marcelo Spalding


Sílvia Generali

julho de 2020

SPALDING, Marcelo. A cor do outro. 2.ed. - Porto Alegre: Editora Metamorfose, 2017



A cor do outro é muito mais do que um romance adolescente. É um livro sobre preconceitos e sobre o quanto afetam nossas vidas. Não só a vida daqueles que sofrem o preconceito, mas de todos aqueles que de alguma forma compartilham e se deparam com ele. Como disse o personagem Gilmar, “Quando o assunto é preconceito, não existem vilões nem heróis. Todos, todos nós somos as vítimas”.

Racismo e homofobia geram sofrimento. Os personagens sofrem, seus amigos sofrem, as famílias não encontram a felicidade que está tão próxima.

Embora Spalding traga alguns dados históricos – embutidos nas pesquisas da personagem Camilla – para de alguma forma apresentar a contexto do racismo aos leitores, estes não se constituem na abordagem principal. O foco está na violência que a discriminação imprime nas microrrelações quotidianas, tendo como pano de fundo o racismo estrutural e o desprezo contra os que escapam à heteronormatividade.
Neste livro o racismo não é teórico. Ele é sentido, vivido, exemplificado. Está na porta ao lado, na casa do vizinho, e nos faz refletir como ele se imiscuiu também na nossa casa.

Spalding parece nos advertir: não é porque você é branco e heterossexual que o racismo e a homofobia não tem nada a ver com você.

O advogado Onir Araújo, defensor das causas quilombolas e líder de movimentos contra o racismo me disse certa vez que o racismo pode começar a se descontruir nas pequenas relações do dia a dia. É possível pensar, com Spalding e Araújo, que precisamos de Martin Luther King para mobilizar multidões, mas que um adolescente negro e uma adolescente branca que se apaixonam também têm o poder de questionar o que de fato importa na nossa frágil humanidade.

A leitura me fez rever preconceitos que presenciei, que vivi, que me doeram e que ainda doem mas ao mesmo tempo me deu mais força para assumir atitudes firmes frente aos casos de racismo e homofobia. Este posicionamento não é fácil para um adulto, o que dirá para um adolescente cheio de incertezas.

Os familiares dos personagens principais não apoiaram em nada as características e as escolhas dos filhos. Julgavam estar protegendo sua prole ou será que assumiam para si mesmos que estavam apenas a preservar uma autoimagem construída sobre o sofrimento alheio?

A cor do outro nos faz pensar, nos faz reviver, mas sobretudo nos encoraja e construir valores familiares e sociais favoráveis à diversidade, que é a única forma de sermos plenos e felizes.

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Sílvia Generali

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