CRÔNICA: Não aceite como normal o que é assédio moral


Sílvia Generali

Texto produzido para o SIMPE-RS em 01 de julho de 2020.

Nesta semana o SIMPE-RS iniciou uma campanha de divulgação de cards contra o assédio moral no trabalho. Cada card apresenta uma situação que já ocorreu com servidores do MP-RS e que foram relatadas ao Sindicato em diferentes ocasiões. O que motivou a campanha foi o fato de que muitos dos depoimentos apontaram as ocorrências como frequentes e vistas como “normais”. Vamos então refletir sobre o que significa ser “normal”?



Consultando qualquer dicionário, veremos que normal é algo “de acordo com a norma, com a regra; comum, habitual, usual”. Neste sentido, poderíamos dizer que o assédio moral é normal, por ser frequente, não raro, comum. O assédio está de acordo com a regra? Qual regra? Se entendermos regra como algo próximo da lei, a determinação formal e escrita de um comportamento desejável, cujo descumprimento leve a algum tipo de punição, o assédio moral não é normal. Entretanto, se entendermos a norma como algo ditado de maneira informal, pela cultura organizacional, transmitida aos servidores pelo exemplo e pela oralidade, aí podemos pensar que o assédio moral no MP é normal.



Vamos a outros significados: “Quando se diz que determinada pessoa é normal, quer dizer que apresenta um comportamento e aparência que é socialmente aceitável e comum. Agir com normalidade é o mesmo que seguir os comportamentos que são esperados de acordo com determinada situação, por exemplo. Um indivíduo normal não costuma se destacar dos demais ao seu redor, pois apresenta características que lhe fazem comum ao seu grupo. O oposto de algo ou alguém normal é anormal, estranho ou inusitado”.

Esta definição nos leva a perguntar o que é esperado como comportamento adequado no MP-RS? Quais as características comuns ao grupo? Que tipo de atitude leva o servidor a ser visto como estranho?



Os relatos dos servidores sugerem que espera-se que toda e qualquer atitude vinda do alto da hierarquia seja aceita e toda determinação seja cumprida exatamente na forma solicitada. Este é o normal, ditado pela cultura organizacional da instituição. Não surpreende. As instituições com hierarquias rígidas – herança das hierarquias militares - possuem como traço cultural a obediência e a aceitação das ordens superiores sem questionamentos. Estas estruturas organizacionais, chamadas de piramidais, também apresentam como características básicas culturas institucionais fortes, centralização das decisões, comunicações formais, cadeia de comando bem definida, controle rígido e departamentalização.

Sendo assim, pensar o assédio moral como um fenômeno anormal exige que se repense de forma não habitual a cultura organizacional do MP e as expectativas sobre os servidores que lá atuam. Isto significa repensar padrões de comportamento.




Modificar padrões de comportamento exige que se repensem também os valores e as políticas que embasam os comportamentos. O que queremos? Subserviência e obediência cega? Ou valorização dos servidores e oportunidades de participação no trabalho? Qual nossa premissa sobre as relações de trabalho no MP-RS? Todos os integrantes, membros e servidores, são dignos de respeito e são capazes de contribuir com sua inteligência e dedicação para o sucesso institucional ou há pesos e valores diferentes de acordo com o cargo?



Somente mudando as lentes com as quais encaramos as relações de trabalho e que são matizadas pela cultura institucional é que poderemos ver como anormal a ocorrência de fatos como os relatados nos cards que o Sindicato começa a postar. Assédio moral é normal por frequente mas não é normal do ponto de vista ético, humano e das relações de trabalho nas organizações orgânicas contemporâneas.

1. https://www.dicio.com.br/normal/
2.https://www.significados.com.br/normal/
3. COSTA, Silvia Generali. Comportamento Organizacional: cultura e casos brasileiros. São Paulo: LTC, 2014.
ROBBINS, Stephen P.; JUDGE, Timothy A.; SOBRAL, Filipe. Comportamento Organizacional: teoria e prática no contexto brasileiro. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2010.

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Sílvia Generali

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