CRÔNICA: A falsa normalidade em ação


Sílvia Generali

texto produzido para o SIMPE-RS
18 de junho de 2020

Tenho saído de casa para atividades imprescindíveis, como idas ao dentista. Se falta algum item essencial em casa, procuro chamar uma tele-entrega ou passar numa padaria ampla, próxima da minha casa, onde costuma ter poucos clientes circulando. Percebo, entretanto, que a cada saída minha, encontro mais gente sem máscara, mais aglomerações, mais filas nos comércios, mais engarrafamentos. Conversando com colegas que estão procurando, assim como eu, respeitar a quarentena, notamos que estamos sendo vistos como paranoicos, medrosos, descrentes em Deus e até, o que não sei se é elogio ou xingamento na atual conjuntura, “ricos”.

Nada mais distante da verdade. O jornal Correio do Povo tem nos atualizado a listagem dos bairros com maior incidência de COVID-19 e entre os “top ten” estão diversos bairros de classe alta ou média alta. Nas portas dos shoppings, em sua recente reabertura – que resultou em novo fechamento -, filas para entrada. Independente da classe social, há pessoas nas ruas. Os que têm que trabalhar circulam para sobreviver. Mas e os que estão em festas clandestinas? Os que não usam máscaras? Os que ficam aglomerados em bares e restaurantes? Os que oferecem festas em casa?

Não há indícios de que a pandemia entrou em declínio. Ao contrário. Falta de informação? Não creio. Os jornais passam o dia alardeando as últimas estatísticas de contágio mundo afora e entrevistando profissionais de UTIs, em suas duras rotinas, enquanto familiares de doentes e de mortos dão depoimentos dramáticos no jornal da noite.

Um amigo me disse a respeito do tema, “acho que as pessoas não aguentam mais ficar em casa e cansaram de se cuidar”. Ora, cuidar de si e do próximo em uma pandemia não é algo do qual alguém possa resolver “não brincar mais”. O que tenho ouvido são relatos de fé, “Deus está comigo e não ficarei doente” (o que pode ser muito positivo, desde que se dê uma mãozinha ao Criador com muito álcool gel e isolamento); atestados de negação da ciência como “não é tudo isso aí que estão dizendo”; e frases impensadas como “prefiro morrer de COVID feliz tomando meu choppinho com os amigos”.

Diante deste quadro, proponho pensarmos a situação como um mecanismo de negação coletivo. A negação foi proposta por Freud como um dos mecanismos de defesa do ego frente ao sofrimento. Face ao insuportável, e ainda que de modo inconsciente, dizemos para nós mesmos: “isto não está acontecendo” ou “ não pode ser verdade, deve ter havido algum engano”. Com isto, evitamos a dor da realidade. E a realidade hoje é que estamos privados de uma série de coisas que nos são importantes, como a proximidade social, o toque físico, as festividades, o trabalho presencial, os passeios descontraídos, e tantas outras. Como se não bastasse, a realidade é em si, independente da percepção individual ou coletiva, perigosa. Podemos contagiar-nos e contagiar outras pessoas.

A negação pode ser um mecanismo efetivo por curto espaço de tempo, enquanto o psiquismo se fortalece para encarar os fatos, mas traz em si um problema: ao negarmos a realidade aversiva, não podemos lutar contra ela nem buscar meios de proteção e de cuidado. Como é recorrente dizermos na psicologia, “dar-se conta e aceitar a realidade são os primeiros passos para transformá-la”.

Texto produzido para o SIMPE e publicado no site:https://simpe-rs.multiscreensite.com/

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Sílvia Generali

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