CRÔNICA: Os macaquinhos descem do sótão


Sílvia Generali

Silvia Generali da Costa para o SIMPE-RS
06 de maio de 2020

Há pouco eu conversava com a Vice-Presidente do SIMPE-RS, Sandra Zembrzuski, e com a professora Leila Tardivo, do Instituto de Psicologia da USP, a respeito dos efeitos do COVID-19 sobre a saúde mental. A professora Tardivo coordena o projeto APOIAR, onde são realizados atendimentos supervisionados a crianças, adolescentes e seus pais em situação de vulnerabilidade social, em especial as que vivem em instituições de acolhimento. Também são atendidas crianças e adolescentes encaminhadas por instituições parceiras (governamentais e não governamentais) e escolas. Atualmente, o APOIAR tem se deparado com muita procura de pessoas em situação de sofrimento psíquico devido ao confinamento e à ameaça à saúde, ao emprego e às possibilidades de sobrevivência.

A professora Leila nos chamou atenção para o fato de que o quadro atual se destaca não só pelo surgimento de patologias, mas pelo agravamento de patologias pré-existentes ou pelo desencadeamento de sintomas que até então não haviam surgido na medida em que os pacientes atendidos se encontravam em uma situação de estabilidade e de razoável proteção de seu modo de vida.

Quando eu era criança, se utilizava muito a expressão “fulano está com macaquinhos no sótão” quando queríamos indicar que alguém estava muito preocupado ou temeroso. Fiquei aqui refletindo se o COVID-19 não é aquele sujeito mau, dos filmes de fantasma, que abriu as portas do sótão e liberou todos os macaquinhos de uma vez só. Agora, todos eles estão descontrolados, buscando o seu lugar e nos tirando a paz, o sono e a saúde.

Quais seriam os macaquinhos recém libertos? Medos, ansiedades, traumas, fantasias ruins de infância, ressentimentos, inseguranças, sensação de vulnerabilidade; dúvidas quanto a nossa imagem pessoal perante os outros e perante nós mesmos, raiva, angústia, solidão, sentimento de incapacidade, impotência, desespero, melancolia e tantos outros fantasmas. Todos amplificados pelo eco da ameaça real, o COVID-19, pelo isolamento e pela necessidade de espera por um prazo indefinido.

Muitos dos que enfrentavam seus fantasmas através do trabalho dedicado e intenso ou das reuniões sociais frequentes, agora estão tendo de travar uma luta solitária.

A reflexão desta semana quer trazer três pressupostos inter-relacionados.

O primeiro pressuposto é o de que não podemos simplesmente tentar fugir dos nossos medos ou negá-los. Eles estão aí e a melhor maneira de lidar com eles é reconhecendo sua existência e refletindo sobre sua origem. Para o enfrentamento, é preciso que saibamos primeiramente o que enfrentamos. É necessário acender a luz do sótão e tentar descobrir aonde estavam nossos macaquinhos, o que faziam, de que forma interferiam em nossa vida antes do coronavírus. O quanto o isolamento os fortaleceu?
Que estratégias de enfrentamento podem surgir neste período de mais introspecção e menos ação?

O segundo pressuposto é que há um outro canto escondido na casa, onde descansavam os talentos, as forças desconhecidas, a capacidade de suportar, a solidariedade, a compaixão, a capacidade de adaptação e o amor. É neste canto que encontraremos meios para lidar com nossos macacos, com ferramentas que até então nem sabíamos possuir.

O terceiro pressuposto é de que, por mais que pareça, não estamos sozinhos. Ainda que mediados por tecnologias diversas, ainda que sem o toque da pele, nossos amigos e parentes continuam preocupados conosco e ansiosos por notícias e trocas de experiências. Parte de nós continua com seu trabalho remoto, tendo a oportunidade de desenvolver suas habilidades no uso de tecnologias digitais. Além disso, muitos terapeutas estão atendendo seus pacientes de forma virtual. Para os que não dispõem de recursos financeiros, há serviços gratuitos ou subsidiados, como o APOIAR da USP, os serviços de atendimento à Comunidade do Instituto de Psicologia da UFRGS e da PUCRS, o Fundação Mário Martins, só para citar alguns aqui da região sul.

E finalmente, não esqueça de que agora o SIMPE-RS conta com uma OUVIDORIA EM SAÚDE que disponibiliza um serviço de acolhimento no qual você poderá conversar sobre sua situação atual e terá apoio na busca de alternativas para aquilo que lhe aflige.

Quem sabe este não é o momento de reencontro e diálogo com aqueles macaquinhos que estavam há anos no sótão em busca de atenção?

Texto produzido para o SIMPE e publicado no site:https://simpe-rs.multiscreensite.com/

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Sílvia Generali

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