CRÔNICA: Convivendo com a incerteza


Sílvia Generali

No feriado desta terça-feira os telejornais divulgaram várias cenas de porto-alegrenses aglomerados em parques e praças, sem nenhum tipo de proteção contra o coronavírus. Na quarta, tive de sair de casa - de carro e de máscara - e observei o movimento nas ruas. Estava quase normal, mas havia muitas pessoas com os rostos cobertos. No supermercado, empacotadores passavam álcool gel nos carrinhos e todos os funcionários utilizavam um protetor facial. Na padaria, ninguém fazia uso da mais simples máscara e apenas um tubo de álcool gel estava depositado na entrada, disponível para os que o julgassem útil.

Fiquei me perguntando o que acontece na minha cidade. E nas outras cidades do país, haja vista que as notícias mostram lugares completamente vazios e outros lotados. Estamos todos na mesma cidade? Somos habitantes do mesmo país? Do mesmo planeta?
Nossa reflexão da semana gira em torno da questão: o que faz as pessoas adotarem comportamentos tão diferentes frente aos perigos do COVID-19.

Me animo a supor que as oscilações de nossos governantes são fatores importantes nesta equação. Uns defendem o isolamento, enquanto outros dizem que o país não pode parar. Uns afirmam, como o novo Ministro da Saúde, que o Brasil “performa” bem em relação à pandemia (a expressão me soa com um desagradável ranço de competitividade empresarial). Outros, que os números de mortos e de contaminados é irreal e subestimado. O governador e o prefeito defendem o isolamento e são brutalmente pressionados pelas associações empresariais de classe, enquanto o presidente desfila por aí desafiando o que ele chamou de “uma gripezinha”.

O psiquismo humano se utiliza de defesas, acionadas sempre que as ameaças crescem. Por ameaças, podemos entender a ansiedade frente à incerteza, a depressão, o sofrimento e a angústia, acompanhadss de seus sintomas mais comuns, a irritabilidade, a insônia, o cansaço e as dores.

Uma das defesas do ego contra o sofrimento é a negação. Não é assim tão perigoso, não acontecerá conosco, vai passar logo, são algumas das frases que nos repetimos para aliviar nossa dor decorrente do medo e da incerteza. No cenário brasileiro, os dirigentes oferecem elementos não só para a negação, mas também para dois outros mecanismos de defesa do ego frente à ansiedade: a racionalização e a intelectualização. Conseguimos encontrar facilmente um governante, no qual escolhemos crer, ainda que por motivos inconscientes, que nos dirá que podemos romper o isolamento, que o COVID-19 só atinge os italianos. Acreditar nestas palavras jogadas ao vento da irresponsabilidade nos permite viver um feriado de normalidade, nas praças, compartilhando bombas de chimarrão, e ainda podemos alegar que estamos “repondo vitamina D”, necessária para reforçar nossas defesas contra o vírus.

Quando não há certezas, é tentador acreditar no mais reconfortante do ponto de vista psíquico, naquilo que reduz a ansiedade. Pensar que “não pode ser tudo isso que estão dizendo na Organização Mundial da Saúde” traz um alento, ainda que temporário e superficial. E se o Presidente da nação mais poderosa do mundo nega recursos à OMS quando os norte-americanos caem doentes às dúzias, é porque “ele deve saber o que está fazendo”.

É muito doloroso admitir que nossa rotina, nosso mundo e nossas relações estão sendo afetadas de forma irremediável e por um período ainda indefinido. É preciso coragem para acreditar nos fatos, dados e evidências apontados pelos cientistas, infectologistas e outros profissionais da saúde. A maior coragem, neste momento tão perturbador, é poder suportar que a vida não é mais a mesma, ainda que nossos políticos teimem em dizer que sim.

Texto produzido para o SIMPE e publicado no site:https://simpe-rs.multiscreensite.com/

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Sílvia Generali

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