CRÔNICA: A diarista e o COVID-19


Sílvia Generali

O trabalho braçal no Brasil é pouco remunerado, e quem observa o padrão de vida de garis, diaristas, auxiliares em restaurantes, auxiliares em hospitais, e tantos outros, sabe bem disto. Fruto de uma mentalidade colonialista, que imprimiu em nossas mentes brasileiras de classe média e de classe alta que algumas pessoas merecem estes empregos mal pagos porque estudaram pouco, somos levados a pensar que “serviço de casa qualquer um pode fazer”. A partir disto, a reflexão de quarentena de hoje é sobre o valor dos serviços de limpeza doméstica e sobre a importância de quem os oferece.

Estamos tendo a rara oportunidade de fazer “o que qualquer um pode fazer”. Estamos podendo compreender porque a empregada “gasta tanto material de limpeza e quer alguns produtos caros”. Tenho conhecidos que se recusam a comprar material de limpeza de boa qualidade na crença de que “a boa empregada se vira com o que tem”.

Realizando pessoalmente a limpeza, tenho a esperança de que mais pessoas percebam, como eu, que há produtos que removem a sujeira com duas esfregadas, e outros com bem mais do que isso. Também espero que percebam que aquele trabalho que qualquer um pode fazer é cansativo, dá dor nas costas e não fica perfeito como exigimos dos outros, nem quando feito por nós.

Mas não se trata somente de limpar, cozinhar e lavar louça e roupas. Cuidar da casa é um gesto de cuidado para com aqueles que nela habitam. Encontrar a casa limpa na volta ao trabalho ou a mesa posta ao meio-dia e poder simplesmente descansar, é sentir-se cuidado.

A jornalista, escritora e ativista norte-americana Barbara Ehrenreich, que estudou a vida dos desempregados e dos subempregados nos Estados Unidos, afirma em um dos seus livros que prefere fazer, ela própria, as tarefas domésticas. Filha de sindicalistas, crítica das políticas ultraliberais estadunidenses e tendo vivenciado as dificuldades na busca de um trabalho em uma de suas pesquisas de campo, ela não se sente à vontade para pedir que lhe prestem este serviço. Pensamento muito diferente da grande maioria dos brasileiros e dos americanos que não só se sente à vontade, como julgam “pagar demais” pelo que recebem.

Trata-se agora, com o COVID-19, de fazer como Ehrenreich e se colocar literalmente no lugar do outro: de joelhos, com um pano de chão em punho. Ela, a escritora, para obter subsídios para seus livros; nós, devido à quarentena. Neste exercício de empatia, surgem questões do tipo: como minha diarista tem fôlego para limpar minha casa e depois limpar a própria casa? Como ela dá conta de filhos gripados e lições de casa? Como cuida de si própria?

Senti de forma dolorosa o que já sabia em tese: que o serviço é mesmo muito pesado. Certa vez, ao limpar um armário de canto, na cozinha, me estiquei tanto quanto pude e tive uma contratura muscular que me fez passar duas semanas à base de anti-inflamatórios e repouso. Na última faxina, já na quarentena, minha coluna lombar me confirmou que a tarefa é para os bravos.

Alguns dirão que tem problemas com as diaristas. Que faltam, se atrasam, não limpam bem a casa, desconhecem as noções básicas de higiene, não querem aprender. Bem, em todas as profissões, há aqueles que não trabalham bem – pelos mais diversos motivos. E também sabemos que a relação “patroa-empregada” é bastante delicada. Mas este tópico renderia um outro artigo.

Eu tenho a sorte de contar com uma diarista excelente, a quem continuo pagando, mesmo na ausência imposta pela quarentena. Já a valorizava e agora, que a casa não está tão limpa e que minhas costas doem, valorizo mais ainda. Entendo que ao cuidar da casa ela está cuidando da minha família. Fico com a sensação de que tudo o que eu posso lhe pagar, ainda é pouco.

Texto produzido para o SIMPE e publicado no site:https://simpe-rs.multiscreensite.com/

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Sílvia Generali

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