CRÔNICA: COVID-19: O VÍRUS DA DESORDEM


Sílvia Generali

A vilã contemporânea tem sido a rotina. Quem nunca ouviu de um amigo divorciado culpar a rotina pela separação do casal? Quem nunca ouviu um anúncio de automóvel ou de agência de viagens seduzindo os clientes em potencial com a promessa de sair da rotina? Quem nunca ouviu alguém afirmar que necessita de férias para sair da rotina?

Culpamos a rotina por nossas dificuldades amorosas, por nosso cansaço no trabalho e por nosso tédio e sonhamos com o dia em que nos livraremos dela em alguma praia no Caribe.

Será mesmo verdade que a rotina é esta coisa chata e prejudicial, que só torna nossos dias mais opacos?

O Google Search nos diz que a rotina é “o caminho utilizado normalmente; itinerário habitual” e no sentido figurado, “o hábito de fazer algo sempre do mesmo modo, mecanicamente”.

A pandemia do COVID-19 nos arrancou, indubitavelmente, de nossas rotinas. Não podemos mais fazer o de sempre, o que estávamos habituados, o que era repetição: sair para trabalhar ou para estudar no mesmo horário, sair com os amigos, passear no shopping, ir ao cinema, visitar os parentes, ir para a academia, ao salão, ao supermercado. De um dia para o outro, zás! Nos trancamos em casa apreensivos e sem saber o que fazer com nossas horas.

Os sites de apoio psicológico têm sugerido que estabeleçamos uma rotina para fugir da ansiedade e do medo que a quarentena pode gerar.

Então, proponho refletirmos sobre o papel da rotina em nossas vidas e, em especial, neste momento. Parto do pressuposto de que a rotina ruim é aquela expressa no sentido figurado, de repetição mecânica das ações. A rotina positiva é a do sentido literal, de termos um caminho habitual.

A rotina tem uma função estruturante. Ela nos afasta da incerteza, que costuma gerar angústia, e nos permite liberar nossas energias para a manutenção da saúde e para a criação. A rotina nos liberta de termos que pensar no que faremos no dia seguinte, como será o dia de hoje, o que fazer primeiro, o que é mais importante, o que pode ser adiado, quais as consequências de cada escolha, que recursos eu necessito para dar conta da vida. Ela nos trás o conforto de que amanhã saberemos onde estaremos, com quem e como, e a perspectiva tranquilizadora de que amanhã estaremos tão bem quanto estivemos hoje. Não precisaremos demonstrar aos nossos parceiros e amigos quem somos nem procurar causar uma boa impressão, nem tentar adivinhar suas intenções. Já nos conhecemos. Sabemos onde pisamos. A rotina afasta o medo e a ansiedade porque nos indica o caminho mais confortável: o conhecido.

Associar a rotina ao tédio e ao fracasso não me parece correto do ponto de vista causa-efeito. Há novidades e aprendizagem na rotina. A cada aula de musculação, alguém pode descobrir-se mais forte. A cada novo livro lido antes de dormir, há um mundo desconhecido e instigante. A cada dia passado em nossa casa percebemos o quanto ela pode ser aconchegante. A cada dia que passamos com a pessoa amada, redescobrimos porque a amamos.

Se o casamento acabou porque virou uma rotina, é porque virou uma desagradável rotina. Se o trabalho me aborrece, não é porque é rotineiro, é porque é monótono ou desprovido de sentido para mim.

Para aqueles que dizem que no seu trabalho não há rotina, me lembro de uma frase repetida pelos colaboradores de uma dinâmica empresa na qual trabalhei: “nossa rotina é mudar”.

Estabeleça para si mesmo uma rotina COVID-19. Não se desgaste com angústias matinais do tipo “meu Deus, o que vou fazer hoje”? Você verá que será bem mais fácil enfrentar nestes dias de mudanças tão importantes no nosso cotidiano.


Material produzido para o SIMPE e publicado no site:https://simpe-rs.multiscreensite.com/

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Sílvia Generali

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